Mais uma exposição …

Sábado passado visitamos, eu e meu marido Duayer, a exposição dedicada ao arquiteto Paulo Mendes da Rocha no Museu da VALE. Sempre tenho grandes expectativas quando prestigio a obra de pessoas consagradas em suas áreas de atuação. Já conhecia e admirava algumas de suas criações. Queria conhecer mais, perceber detalhes e implicações que me passaram despercebidos. Enfim, eu buscava intimidade com a obra do Paulo.

Não foi bem assim que as coisas se passaram…

Para começo de conversa, a precariedade e a falta de sinalização das vias de acesso ao museu são indesculpáveis e intoleráveis. Se a ultramegaempresa VALE mostrasse um tiquinho de bom senso, mandaria reparar aqueles caminhos, e o faria segundo um belo projeto urbanístico e paisagístico, sem esperar pela iniciativa da Prefeitura Municipal de Vila Velha.

Para os moradores de Vitória, o melhor é contratar um catraieiro no Centro para chegar ao Museu da VALE. Pode ser mais sensato atravessar a Baía de Vitória em uma canoa do que ir de carro e cruzar um mar de lama fétida e inúmeros buracos, sem viva alma por perto para nos ajudar em caso de algum acidente.

Enfim, chegamos ao Museu do Vale e à exposição sobre Paulo Mendes da Rocha.

Entrando no espaço expositivo fomos envolvidos pela escuridão de uma sala reservada para a projeção de um depoimento dado pelo próprio arquiteto. Desorientados, caminhamos em direção ao vulto de uma recepcionista, que sem dizer uma palavra apresentou-nos um livro de presenças, que assinamos no escuro. Perguntamos sobre o tempo de duração da projeção e em que momento se encontrava: início, meio ou fim? A moça não sabia e nós optamos por assistir o vídeo em outro momento. Solicitamos então algum material impresso sobre a exposição, recebemos um pequeno folder e prosseguimos para o espaço seguinte. Lá encontramos um ambiente monocromático e um longo varal que sustentava material impresso sobre as obras de Paulo Mendes da Rocha. E umas poucas maquetes…  O anticlímax estava prestes a acontecer, mas ainda não queríamos dar o braço a torcer.

Como abordar aquela tripa? Perguntamos e fomos orientados a seguir pela direita, onde se informava sobre os projetos ainda não executados do arquiteto e a retornar pela esquerda onde constavam as suas grandes realizações. E lá fomos nós. A cada projeto, realizado ou não, uma planta baixa, um corte, uma perspectiva, uma vista aérea e uma dificuldade de apreensão da proposta pelas sucintas ou cifradas informações fornecidas. O público leigo em arquitetura e áreas afins não domina os seus códigos e, portanto, não registra o potencial daquelas plantas, cortes, perspectivas e maquetes, são apenas mensagens cifradas. O público especializado na área quer saber mais, quer imagens sobre as condições atuais dos projetos realizados, quer informações sobre os projetos ainda não realizados: qual a real perspectiva de execução dos mesmos, em que fase se encontram etc. Neste caso as informações são sucintas, e na maioria das vezes, inexistentes.

Senti falta dos tijolos vermelhos da Pinacoteca do Estado de São Paulo, senti falta da imagem de São Pedro refletida no espelho d´água da capela do imóvel do governo paulista em Campos do Jordão, senti falta dos jardins do Museu Brasileiro de Escultura, senti falta de alguns aspectos da obra de Paulo Mendes da Rocha que não denotam a sua essência, mas que cativam e conquistam admiradores leigos. Senti falta de recursos audiovisuais interativos que permitissem um percurso virtual por seus projetos e que favorecessem aos nossos jovens e crianças, tão afeitos à tecnologia 3D, admirar a obra do grande arquiteto.

O espaço expositivo estava vazio de alma e conteúdo, ao contrário dos vazios do renomado arquiteto sempre tão significativos e vitais.

Li a ficha técnica da exposição e inteirei-me do seu design definido para a sua itinerância e isto talvez explique algumas opções simplistas. Será?

A exposição é inócua, quem já conhecia o trabalho impactante do Paulo continuará a admirá-lo, apesar de tudo. Quem não o conhecia, continuará na ignorância. A mostra parece um trabalho escolar de aluno preguiçoso do século XX: decalque desatualizado e texto copiado de alguma enciclopédia.

Para salvar o sábado, só mesmo o próprio Paulo Mendes da Rocha. Seu depoimento-entrevista é um bálsamo para as nossas mentes e almas. O resto é para ser esquecido…

 

Vitória-ES, 10 de novembro de 2012.

Lourdes Valle

 

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