Jerônimo Monteiro: a Avenida

Neste Carnaval de 2012 permaneci em Vitória. Como foliã-fotógrafa percorri várias vezes a avenida Jerônimo Monteiro em busca de imagens interessantes. Pude fazê-lo com calma e segurança, pois a grande artéria do Centro da cidade foi interditada aos veículos motorizados e preparada para receber os súditos de Momo, e quem mais quisesse usufruí-la.

A Jerônimo Monteiro evoca muitas lembranças da minha infância. Matinées nos cines Juparanã e Glória, e mais tarde também no Odeon.  Saindo das sessões do Glória, saboreava cocadas deliciosas, compradas em uma vendinha logo ao lado da entrada do cinema. Hummmm ….

Outras delícias: sundae na lanchonete dos fundos do Empório Capixaba e caldo de cana fresquinho e pastel quentinho na Rua da Alfândega, tudo isso após fazer compras com a minha mãe Camila no comércio diversificado da avenida.

Os passeios com meu pai Edison eram puro encantamento. Lá ia eu de mãos dadas com aquele monumento da elegância capixaba e baiana, o presidente do Clube Número Um.  A cidade parava para vê-lo evoluir na avenida, um homem elegante em todos os sentidos.  Para me fazer o gosto visitávamos sempre a banca ( na verdade, uma loja) do Copolillo para comprar “revistinhas”: Tio Patinhas e Cia …

É verdade que o dentista, o médico, o laboratório de análises clínicas e outras atividades não muito prazerosas também aconteciam ao longo da Jerônimo Monteiro, mas fazem parte da vida de todos nós, não é ??!!?

Outros motivos para frequentarmos a Jerônimo Monteiro eram os dias festivos:  Carnaval, Independência, conquista da Copa do Mundo, visita de autoridades. O povo acorria para acompanhar as paradas militares e estudantis, festejar as grandes conquistas esportivas, espiar o cortejo de presidentes da República e heróis da Pátria. Mas também comparecia para reivindicar direitos e expressar opiniões.  A avenida, como o coração pulsante da cidade que é, quando para exige a atenção de todos e por isso sempre foi o palco ideal para a “voz do povo”.

De todas estas memórias, a mais antiga, por isso mesmo a mais imprecisa, é o Mercado da Capixaba. Como filha temporã, única criança entre adultos, era preciso que me arranjassem distrações para que eu não perturbasse a rotina da casa. E sendo assim, enviavam-me com a minha babá Zenilda ao Mercado da Capixaba para fazer a feira. Íamos de bonde, saindo da Praça Costa Pereira onde a minha família morava até a Esplanada Capixaba. Confesso que não me lembro do trajeto e da diversão que ele devia me proporcionar, mas me lembro do Mercado e sua feira. São lembranças de cheiros e sabores, cores e sons que me invadem com força, embora com inexatidão. Eu teria 3, 4, 5  anos, ainda não frequentava a escola, e tinha tempo de sobra para essas pequenas aventuras. O colorido feérico das bancas da feira ficou retido em mim, bem como o prazer de futucar aqueles produtos com os meus dedos e depois lambê-los para sentir-lhes o sabor, para desespero dos feirantes e da minha babá. E muitos cheiros: bons, desagradáveis, estranhos. Tudo isso emergindo de uma balbúrdia completa, com muita cacofonia e espaços labirínticos. Estas sensações me impregnaram para toda a vida. Gostoso de recordar…

Examinando hoje este espaço tão cheio de vida de outrora, observo com pesar o seu abandono, a corrupção de suas linhas elegantes e a ignorância generalizada sobre a sua importância no passado recente do Centro de Vitória. E como o Mercado da Capixaba, tantos outros prédios de grande valor simbólico ao longo da Jerônimo Monteiro estão descaracterizados, em péssimo estado de conservação, escondidos atrás de letreiros de gosto duvidoso. Uma lástima ver o passado escorrendo pelo ralo da indiferença. Se essa avenida desaparecesse do mapa da cidade, todo o século XX também seria riscado da sua história. Esperemos sentados pelas prometidas medidas governamentais de revitalização do Centro de Vitória, a que tanto aludem os políticos locais quando necessitados da atenção dos eleitores/moradores da área.

Quem vai reerguer o Centro de Vitória são os seus moradores e usuários. Só a atenção e o engajamento dos interessados podem gerar resultados. O Carnaval de 2012 foi uma prova disso. Muita alegria, muito congraçamento e um notório prazer dos foliões de ocupar um espaço tão distinto e convidativo. As crianças brincavam com suas bicicletas, skates, velocípedes, patinetes, patins e até carrinhos de rolimã (lembram ??), ou simplesmente corriam e passeavam, apropriando-se do imenso espaço livre e tranquilo, muito bem policiado e iluminado nessa época. Aliás, uma boa ideia para as tardes de domingo no Centro de Vitória : permitir aos seus moradores e visitantes curtir a avenida Jerônimo Monteiro como uma grande área de lazer.

Aproveitei e fotografei  algumas formas e linhas que me são tão caras. Vivi e revivi bons momentos. Foi lúdico! Abracei a avenida e a criança que persiste em mim.

 

Lourdes Valle,

Vitória – ES, Fevereiro de 2012.

 

P.S. : Convido os leitores a visitar a Galeria de imagens sobre Vitória aqui no site