Como era verde o meu vale …

 

Há muitos anos não visitava o vale do Rio Doce. Uma viagem recente com meu marido Duayer permitiu-me revê-lo.  Em fins de outubro de 2011, seguimos de Vitória (ES) para o interior de Minas, e na maior parte do trajeto utilizamos a BR-259 que acompanha o curso do Rio Doce em um grande trecho.  O mesmo se dá com a Ferrovia Vitória-Minas, e muitas vezes tomei o trem em Vitória para visitar uma irmã que morava em Governador Valadares (MG), lá pelos anos 70 e 80.

Curti muito a possibilidade de rever o Rio Doce e apresentá-lo a Duayer. Sempre que penso em um grande rio surge a sua imagem. Portentoso, caudaloso, carregando séculos de história e constando da identidade de uma das maiores empresas mineradoras do planeta.

Pois é, tudo muda e nem sempre para melhor, apesar do Rio Doce continuar majestoso. Duayer surpreendeu-se, não o concebia tão volumoso e largo. Mas seu nome já não é mais associado à megamineradora. No seu vale não vemos mais café e gado leiteiro, mas uma devastação difícil de acreditar e aceitar. Algumas cidades às suas margens, agigantaram-se e enfeiaram. Outras minguaram e parecem viver seus últimos dias.

O vale do Rio Doce, outrora tão punjante, parece caminhar para a desertificação. São raríssimas as áreas de preservação da mata nativa e, abundantes, os indícios de severa erosão do solo. Minhas memórias de infância e adolescência foram incineradas pelas grandes queimadas que constatamos ao longo do caminho. No lugar do café encontramos o eucalipto e o pinus e vimos raros exemplares de gado. A aridez daquela paisagem maltratou os nossos olhos e a nossa alma.

Só o Rio Doce persiste em seu curso. Leio e ouço sobre o seu assoreamento e o comprometimento da qualidade das suas águas, e fico chocada de perceber que mesmo aquela força da natureza pode sucumbir à ocupação desordenada e irresponsável do solo.

Nossa viagem se encerrou com um sentimento amargo de desolação. Provoquei em Duayer expectativas de passear por um cenário exuberante e constatei a minha ignorância sobre as atuais condições daquele vale. Busquei estudar e me informar a respeito. Deparei-me com as conclusões dos cientistas : desastre ambiental.

Madeireiras, mineradoras, formação de pastagens para criação extensiva de gado, técnicas agrícolas empobrecedoras do solo, uso do rio como depositário de dejetos fabris, industriais e urbanos e outras práticas nefastas mataram o Rio Doce. Suas águas nos encantam mas estão podres. Lembrei-me agora do dito popular : “Por fora, bela figura, por dentro, pão bolorento.”.

Tentei voltar ao passado e me questionar se tais sinais de devastação ambiental  já não estariam presentes na paisagem que via da janela do trem da Vitória-Minas. É provável que sim, mas também é fato que a preocupação com questões ecológicas apenas engatinhava e eu olhava para o Rio Doce com admiração. O maior, o mais bonito, o caminho que me levava para férias e feriados com meus sobrinhos com muito banho de piscina, tudo de bom.

Fiquei triste com a sofrível condição do vale do Rio Doce. Espero que o crescente engajamento da sociedade com as grandes causas do meio-ambiente não tenha chegado tarde para recuperá-lo de tantas agressões.

Duayer, pode acreditar, como era verde o vale do Rio Doce …

 

Lourdes Valle,

Vitória – ES , dezembro de 2011.