O AMIGO DE INFÂNCIA

Outro dia, andando pelo velho centro de Vitória parei para admirar o relógio da Praça Oito, um belo exemplar da arquitetura  dos anos 40. Um art déco de tirar o chapéu. Mas não era sobre isso que eu queria falar, não.  Deixa eu voltar ao assunto.

Embora estivesse entretido olhando para o relógio e vendo que ainda funciona, senti que me cutucavam no ombro. Dei um salto assustado, como bom carioca que sou, e com o coração pulando feito cabrito, olhei em direção ao que me tocava.

Era um senhor distinto com um sorriso simpático no rosto. Bigodinho, barba bem feita e uns óculos fundo de garrafa pendurados em seu nariz adunco.  Olhei-o de cima a baixo. Bermuda azul, camisa branca, sandália franciscana com meia soquete e uma bolsa de couro a tiracolo. Os braços estendidos pediam um abraço.

- Juvenal, há quanto tempo não nos vemos…

-?

- Vem cá e dá um abraço…

- Senhor, não me chamo Juvenal e acredito que nunca fomos apresentados um ao outro.

- Ah… e você não é o Juvenal lá de Cachoeiro ?!? Somos amigos de infância, rapaz! A gente brincava de jogo de bola lá no campinho do Estrela.

- Cachoeiro???

- do ITA-PE-MI-RIM!!! Não me venha com essa, Juvenal…

- ?

- Sou o Vadinho, rapaz, a gente morava em casa contígua lá no…

- Senhor… Senhor….

- Oswaldo, Vadinho…Esqueceu?

- Me desculpe, seu Vadinho,  eu nasci em Minas, morei no Rio de Janeiro desde criança e agora me mudei pra cá. Confesso que nunca fui a Cachoeiro do Itapemirim. Nada contra, pura falta de tempo, mas ainda irei lá e faço questão de conhecer o campinho onde o Juvenal brincava com você e não eu.

Oswaldo me olhou sério com seus olhos enormes, aumentados pela lente poderosa dos seus óculos. O sorriso havia desaparecido e o  seu olhar desiludido apoderou-se da minha pessoa.

Constrangido, por não ser Juvenal, tentei fazer algum gesto que me tornasse pelo menos simpático, porque palavras me escapavam, mas ele interrompeu:

- Sinto muito… Sinto muito. Ele me disse quase chorando. Foi mais um engano meu… Ando tão solitário, desde que minha esposa faleceu,  que fico vendo amigos de infância em todo mundo, mas….

- Acontece, seu Vadinho.

- Que você parece com o Juvenal, isso parece… Tem certeza que não é mesmo o Juvenal?

- Tenho…tenho…

Seu Vadinho deu meia volta e, sem olhar para trás, saiu andando cabisbaixo. O corpo curvado demonstrava um certo cansaço.

Me senti um calhorda por não ser Juvenal, o amigo de infância de Vadinho… Fiquei olhando ele desaparecer na multidão que caminhava pela calçada. O relógio da Praça Oito marcava 16h15 e é minha testemunha.

(Duayer)