Paraíba do Sul – Estrada Real

Apresentamos breve crônica sobre nossas andanças pelo interior do estado do Rio de Janeiro, no município de Paraíba do Sul e seus distritos, sempre buscando conhecer um pouquinho mais do Brasil. Ao sul paraibanos agradecemos a acolhida e a Ulisses Araujo, nosso companheiro de explorações, agradecemos o seu bom humor e disposição.

Cliquem no link abaixo para acessar um texto descontraído com nossas fotos e comentários. Duayer e Lourdes.

Paraíba do Sul – RJ – Estrada Real – Brasil

Mais uma exposição …

Sábado passado visitamos, eu e meu marido Duayer, a exposição dedicada ao arquiteto Paulo Mendes da Rocha no Museu da VALE. Sempre tenho grandes expectativas quando prestigio a obra de pessoas consagradas em suas áreas de atuação. Já conhecia e admirava algumas de suas criações. Queria conhecer mais, perceber detalhes e implicações que me passaram despercebidos. Enfim, eu buscava intimidade com a obra do Paulo.

Não foi bem assim que as coisas se passaram…

Para começo de conversa, a precariedade e a falta de sinalização das vias de acesso ao museu são indesculpáveis e intoleráveis. Se a ultramegaempresa VALE mostrasse um tiquinho de bom senso, mandaria reparar aqueles caminhos, e o faria segundo um belo projeto urbanístico e paisagístico, sem esperar pela iniciativa da Prefeitura Municipal de Vila Velha.

Para os moradores de Vitória, o melhor é contratar um catraieiro no Centro para chegar ao Museu da VALE. Pode ser mais sensato atravessar a Baía de Vitória em uma canoa do que ir de carro e cruzar um mar de lama fétida e inúmeros buracos, sem viva alma por perto para nos ajudar em caso de algum acidente.

Enfim, chegamos ao Museu do Vale e à exposição sobre Paulo Mendes da Rocha.

Entrando no espaço expositivo fomos envolvidos pela escuridão de uma sala reservada para a projeção de um depoimento dado pelo próprio arquiteto. Desorientados, caminhamos em direção ao vulto de uma recepcionista, que sem dizer uma palavra apresentou-nos um livro de presenças, que assinamos no escuro. Perguntamos sobre o tempo de duração da projeção e em que momento se encontrava: início, meio ou fim? A moça não sabia e nós optamos por assistir o vídeo em outro momento. Solicitamos então algum material impresso sobre a exposição, recebemos um pequeno folder e prosseguimos para o espaço seguinte. Lá encontramos um ambiente monocromático e um longo varal que sustentava material impresso sobre as obras de Paulo Mendes da Rocha. E umas poucas maquetes…  O anticlímax estava prestes a acontecer, mas ainda não queríamos dar o braço a torcer.

Como abordar aquela tripa? Perguntamos e fomos orientados a seguir pela direita, onde se informava sobre os projetos ainda não executados do arquiteto e a retornar pela esquerda onde constavam as suas grandes realizações. E lá fomos nós. A cada projeto, realizado ou não, uma planta baixa, um corte, uma perspectiva, uma vista aérea e uma dificuldade de apreensão da proposta pelas sucintas ou cifradas informações fornecidas. O público leigo em arquitetura e áreas afins não domina os seus códigos e, portanto, não registra o potencial daquelas plantas, cortes, perspectivas e maquetes, são apenas mensagens cifradas. O público especializado na área quer saber mais, quer imagens sobre as condições atuais dos projetos realizados, quer informações sobre os projetos ainda não realizados: qual a real perspectiva de execução dos mesmos, em que fase se encontram etc. Neste caso as informações são sucintas, e na maioria das vezes, inexistentes.

Senti falta dos tijolos vermelhos da Pinacoteca do Estado de São Paulo, senti falta da imagem de São Pedro refletida no espelho d´água da capela do imóvel do governo paulista em Campos do Jordão, senti falta dos jardins do Museu Brasileiro de Escultura, senti falta de alguns aspectos da obra de Paulo Mendes da Rocha que não denotam a sua essência, mas que cativam e conquistam admiradores leigos. Senti falta de recursos audiovisuais interativos que permitissem um percurso virtual por seus projetos e que favorecessem aos nossos jovens e crianças, tão afeitos à tecnologia 3D, admirar a obra do grande arquiteto.

O espaço expositivo estava vazio de alma e conteúdo, ao contrário dos vazios do renomado arquiteto sempre tão significativos e vitais.

Li a ficha técnica da exposição e inteirei-me do seu design definido para a sua itinerância e isto talvez explique algumas opções simplistas. Será?

A exposição é inócua, quem já conhecia o trabalho impactante do Paulo continuará a admirá-lo, apesar de tudo. Quem não o conhecia, continuará na ignorância. A mostra parece um trabalho escolar de aluno preguiçoso do século XX: decalque desatualizado e texto copiado de alguma enciclopédia.

Para salvar o sábado, só mesmo o próprio Paulo Mendes da Rocha. Seu depoimento-entrevista é um bálsamo para as nossas mentes e almas. O resto é para ser esquecido…

 

Vitória-ES, 10 de novembro de 2012.

Lourdes Valle

 

Jerônimo Monteiro: a Avenida

Neste Carnaval de 2012 permaneci em Vitória. Como foliã-fotógrafa percorri várias vezes a avenida Jerônimo Monteiro em busca de imagens interessantes. Pude fazê-lo com calma e segurança, pois a grande artéria do Centro da cidade foi interditada aos veículos motorizados e preparada para receber os súditos de Momo, e quem mais quisesse usufruí-la.

A Jerônimo Monteiro evoca muitas lembranças da minha infância. Matinées nos cines Juparanã e Glória, e mais tarde também no Odeon.  Saindo das sessões do Glória, saboreava cocadas deliciosas, compradas em uma vendinha logo ao lado da entrada do cinema. Hummmm ….

Outras delícias: sundae na lanchonete dos fundos do Empório Capixaba e caldo de cana fresquinho e pastel quentinho na Rua da Alfândega, tudo isso após fazer compras com a minha mãe Camila no comércio diversificado da avenida.

Os passeios com meu pai Edison eram puro encantamento. Lá ia eu de mãos dadas com aquele monumento da elegância capixaba e baiana, o presidente do Clube Número Um.  A cidade parava para vê-lo evoluir na avenida, um homem elegante em todos os sentidos.  Para me fazer o gosto visitávamos sempre a banca ( na verdade, uma loja) do Copolillo para comprar “revistinhas”: Tio Patinhas e Cia …

É verdade que o dentista, o médico, o laboratório de análises clínicas e outras atividades não muito prazerosas também aconteciam ao longo da Jerônimo Monteiro, mas fazem parte da vida de todos nós, não é ??!!?

Outros motivos para frequentarmos a Jerônimo Monteiro eram os dias festivos:  Carnaval, Independência, conquista da Copa do Mundo, visita de autoridades. O povo acorria para acompanhar as paradas militares e estudantis, festejar as grandes conquistas esportivas, espiar o cortejo de presidentes da República e heróis da Pátria. Mas também comparecia para reivindicar direitos e expressar opiniões.  A avenida, como o coração pulsante da cidade que é, quando para exige a atenção de todos e por isso sempre foi o palco ideal para a “voz do povo”.

De todas estas memórias, a mais antiga, por isso mesmo a mais imprecisa, é o Mercado da Capixaba. Como filha temporã, única criança entre adultos, era preciso que me arranjassem distrações para que eu não perturbasse a rotina da casa. E sendo assim, enviavam-me com a minha babá Zenilda ao Mercado da Capixaba para fazer a feira. Íamos de bonde, saindo da Praça Costa Pereira onde a minha família morava até a Esplanada Capixaba. Confesso que não me lembro do trajeto e da diversão que ele devia me proporcionar, mas me lembro do Mercado e sua feira. São lembranças de cheiros e sabores, cores e sons que me invadem com força, embora com inexatidão. Eu teria 3, 4, 5  anos, ainda não frequentava a escola, e tinha tempo de sobra para essas pequenas aventuras. O colorido feérico das bancas da feira ficou retido em mim, bem como o prazer de futucar aqueles produtos com os meus dedos e depois lambê-los para sentir-lhes o sabor, para desespero dos feirantes e da minha babá. E muitos cheiros: bons, desagradáveis, estranhos. Tudo isso emergindo de uma balbúrdia completa, com muita cacofonia e espaços labirínticos. Estas sensações me impregnaram para toda a vida. Gostoso de recordar…

Examinando hoje este espaço tão cheio de vida de outrora, observo com pesar o seu abandono, a corrupção de suas linhas elegantes e a ignorância generalizada sobre a sua importância no passado recente do Centro de Vitória. E como o Mercado da Capixaba, tantos outros prédios de grande valor simbólico ao longo da Jerônimo Monteiro estão descaracterizados, em péssimo estado de conservação, escondidos atrás de letreiros de gosto duvidoso. Uma lástima ver o passado escorrendo pelo ralo da indiferença. Se essa avenida desaparecesse do mapa da cidade, todo o século XX também seria riscado da sua história. Esperemos sentados pelas prometidas medidas governamentais de revitalização do Centro de Vitória, a que tanto aludem os políticos locais quando necessitados da atenção dos eleitores/moradores da área.

Quem vai reerguer o Centro de Vitória são os seus moradores e usuários. Só a atenção e o engajamento dos interessados podem gerar resultados. O Carnaval de 2012 foi uma prova disso. Muita alegria, muito congraçamento e um notório prazer dos foliões de ocupar um espaço tão distinto e convidativo. As crianças brincavam com suas bicicletas, skates, velocípedes, patinetes, patins e até carrinhos de rolimã (lembram ??), ou simplesmente corriam e passeavam, apropriando-se do imenso espaço livre e tranquilo, muito bem policiado e iluminado nessa época. Aliás, uma boa ideia para as tardes de domingo no Centro de Vitória : permitir aos seus moradores e visitantes curtir a avenida Jerônimo Monteiro como uma grande área de lazer.

Aproveitei e fotografei  algumas formas e linhas que me são tão caras. Vivi e revivi bons momentos. Foi lúdico! Abracei a avenida e a criança que persiste em mim.

 

Lourdes Valle,

Vitória – ES, Fevereiro de 2012.

 

P.S. : Convido os leitores a visitar a Galeria de imagens sobre Vitória aqui no site

Como era verde o meu vale …

 

Há muitos anos não visitava o vale do Rio Doce. Uma viagem recente com meu marido Duayer permitiu-me revê-lo.  Em fins de outubro de 2011, seguimos de Vitória (ES) para o interior de Minas, e na maior parte do trajeto utilizamos a BR-259 que acompanha o curso do Rio Doce em um grande trecho.  O mesmo se dá com a Ferrovia Vitória-Minas, e muitas vezes tomei o trem em Vitória para visitar uma irmã que morava em Governador Valadares (MG), lá pelos anos 70 e 80.

Curti muito a possibilidade de rever o Rio Doce e apresentá-lo a Duayer. Sempre que penso em um grande rio surge a sua imagem. Portentoso, caudaloso, carregando séculos de história e constando da identidade de uma das maiores empresas mineradoras do planeta.

Pois é, tudo muda e nem sempre para melhor, apesar do Rio Doce continuar majestoso. Duayer surpreendeu-se, não o concebia tão volumoso e largo. Mas seu nome já não é mais associado à megamineradora. No seu vale não vemos mais café e gado leiteiro, mas uma devastação difícil de acreditar e aceitar. Algumas cidades às suas margens, agigantaram-se e enfeiaram. Outras minguaram e parecem viver seus últimos dias.

O vale do Rio Doce, outrora tão punjante, parece caminhar para a desertificação. São raríssimas as áreas de preservação da mata nativa e, abundantes, os indícios de severa erosão do solo. Minhas memórias de infância e adolescência foram incineradas pelas grandes queimadas que constatamos ao longo do caminho. No lugar do café encontramos o eucalipto e o pinus e vimos raros exemplares de gado. A aridez daquela paisagem maltratou os nossos olhos e a nossa alma.

Só o Rio Doce persiste em seu curso. Leio e ouço sobre o seu assoreamento e o comprometimento da qualidade das suas águas, e fico chocada de perceber que mesmo aquela força da natureza pode sucumbir à ocupação desordenada e irresponsável do solo.

Nossa viagem se encerrou com um sentimento amargo de desolação. Provoquei em Duayer expectativas de passear por um cenário exuberante e constatei a minha ignorância sobre as atuais condições daquele vale. Busquei estudar e me informar a respeito. Deparei-me com as conclusões dos cientistas : desastre ambiental.

Madeireiras, mineradoras, formação de pastagens para criação extensiva de gado, técnicas agrícolas empobrecedoras do solo, uso do rio como depositário de dejetos fabris, industriais e urbanos e outras práticas nefastas mataram o Rio Doce. Suas águas nos encantam mas estão podres. Lembrei-me agora do dito popular : “Por fora, bela figura, por dentro, pão bolorento.”.

Tentei voltar ao passado e me questionar se tais sinais de devastação ambiental  já não estariam presentes na paisagem que via da janela do trem da Vitória-Minas. É provável que sim, mas também é fato que a preocupação com questões ecológicas apenas engatinhava e eu olhava para o Rio Doce com admiração. O maior, o mais bonito, o caminho que me levava para férias e feriados com meus sobrinhos com muito banho de piscina, tudo de bom.

Fiquei triste com a sofrível condição do vale do Rio Doce. Espero que o crescente engajamento da sociedade com as grandes causas do meio-ambiente não tenha chegado tarde para recuperá-lo de tantas agressões.

Duayer, pode acreditar, como era verde o vale do Rio Doce …

 

Lourdes Valle,

Vitória – ES , dezembro de 2011.

O AMIGO DE INFÂNCIA

Outro dia, andando pelo velho centro de Vitória parei para admirar o relógio da Praça Oito, um belo exemplar da arquitetura  dos anos 40. Um art déco de tirar o chapéu. Mas não era sobre isso que eu queria falar, não.  Deixa eu voltar ao assunto.

Embora estivesse entretido olhando para o relógio e vendo que ainda funciona, senti que me cutucavam no ombro. Dei um salto assustado, como bom carioca que sou, e com o coração pulando feito cabrito, olhei em direção ao que me tocava.

Era um senhor distinto com um sorriso simpático no rosto. Bigodinho, barba bem feita e uns óculos fundo de garrafa pendurados em seu nariz adunco.  Olhei-o de cima a baixo. Bermuda azul, camisa branca, sandália franciscana com meia soquete e uma bolsa de couro a tiracolo. Os braços estendidos pediam um abraço.

- Juvenal, há quanto tempo não nos vemos…

-?

- Vem cá e dá um abraço…

- Senhor, não me chamo Juvenal e acredito que nunca fomos apresentados um ao outro.

- Ah… e você não é o Juvenal lá de Cachoeiro ?!? Somos amigos de infância, rapaz! A gente brincava de jogo de bola lá no campinho do Estrela.

- Cachoeiro???

- do ITA-PE-MI-RIM!!! Não me venha com essa, Juvenal…

- ?

- Sou o Vadinho, rapaz, a gente morava em casa contígua lá no…

- Senhor… Senhor….

- Oswaldo, Vadinho…Esqueceu?

- Me desculpe, seu Vadinho,  eu nasci em Minas, morei no Rio de Janeiro desde criança e agora me mudei pra cá. Confesso que nunca fui a Cachoeiro do Itapemirim. Nada contra, pura falta de tempo, mas ainda irei lá e faço questão de conhecer o campinho onde o Juvenal brincava com você e não eu.

Oswaldo me olhou sério com seus olhos enormes, aumentados pela lente poderosa dos seus óculos. O sorriso havia desaparecido e o  seu olhar desiludido apoderou-se da minha pessoa.

Constrangido, por não ser Juvenal, tentei fazer algum gesto que me tornasse pelo menos simpático, porque palavras me escapavam, mas ele interrompeu:

- Sinto muito… Sinto muito. Ele me disse quase chorando. Foi mais um engano meu… Ando tão solitário, desde que minha esposa faleceu,  que fico vendo amigos de infância em todo mundo, mas….

- Acontece, seu Vadinho.

- Que você parece com o Juvenal, isso parece… Tem certeza que não é mesmo o Juvenal?

- Tenho…tenho…

Seu Vadinho deu meia volta e, sem olhar para trás, saiu andando cabisbaixo. O corpo curvado demonstrava um certo cansaço.

Me senti um calhorda por não ser Juvenal, o amigo de infância de Vadinho… Fiquei olhando ele desaparecer na multidão que caminhava pela calçada. O relógio da Praça Oito marcava 16h15 e é minha testemunha.

(Duayer)